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The Fosters: lições que aprendemos com a família americana

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A primeira imagem que se vê em “The Fosters” é um centro de detenção juvenil. Callie (Maia Mitchell), uma jovem de 16 anos que está prestes a sair sob pena condicional, encontra Lena (Sherri Saum), a vice-diretora de uma escola bem estruturada, com quem irá morar temporariamente. O contraste é visível, enquanto Lena está composta, apesar de desconfiada em receber uma jovem possivelmente violenta em sua casa, Callie tem hematomas no rosto e o lábio cortado devido as agressões que sofreu ao sair, pedindo a todo tempo para falar com Jude (Hayden Byerly).

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O encontro dos olhos marejados da jovem com o olhar compassivo de Lena dá ao expectador a certeza de que apesar de suas ressalvas, a mais velha não tem a capacidade de negar abrigo a alguém que tenha necessidade. Callie é levada para a casa da família da vice-diretora, onde conhece sua companheira Stef (Teri Polo), que trabalha como policial, e seus filhos, Brandon (David Lambert), filho biológico do casamento anterior da oficial, e os gêmeos Jesus (Jake T. Austin e depois Noah Centineo) e Mariana (Cierra Ramirez), adotados pelo casal quando já estavam juntas.

Inicialmente, Callie se refere à Jude sem nenhum pronome de tratamento, o que junto ao gênero neutro do nome, torna impossível saber se é alguém mais velho ou mais novo, se é alguém com quem teve um romance no passado ou não. Jude, no entanto, é seu irmão mais novo, que ficou para trás num lar adotivo abusivo: o motivo pelo qual ela foi para o centro de detenção. Após o resgate do mesmo, ele também vai morar com os Fosters.

The Bold Type e Kadena

A premiada série produzida por Jennifer Lopez e criada por Peter Paige (“Queer as Folk”) e Bradley Bredeweg (“The Last Breakfast Club”) estreou em 2013 nos Estados Unidos. Ela mostra os problemas, os dilemas e as experiências dos adolescentes e adultos da família Adams Foster, o que leva a uma diversidade enorme de assuntos cobertos em seus 104 episódios. A série trata desde racismo, bullying, alcoolismo, uso de outras drogas como maconha e crack, a abuso sexual tanto com uma vítima que é mulher quanto com uma vítima que é homem, por exemplo, sendo esse último um assunto em geral pouco exposto na sociedade, ainda mais quando a agressora é uma mulher. Contudo, “The Fosters” também explora as relações e dramas tipicamente adolescentes, com diversas histórias de romance e a busca por pertencimento num grupo. Dentre tantas questões importantes abordadas na produção, quatro delas me chamaram mais atenção:

Exploração de gênero e sexualidade

Numa sociedade onde os papeis de gênero são rigorosamente estabelecidos de forma binária e a heterossexualidade é tida como o padrão em contrapartida com outras sexualidades, a busca por entendimento e expressão de si mesmo quando não nos encaixamos nessas noções é no mínimo um desafio. Não bastassem os questionamentos internos, ainda é preciso lidar com a pressão externa.

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Temos o exemplo na série de Jude, que é hostilizado por colegas e agredido em lares adotivos no passado por ter interesse em coisas tipicamente associadas ao gênero feminino e, mais tarde, lidar com o preconceito dos pais do garoto que ele gosta, Connor (Gavin MacIntosh). Vemos também Cole, um homem trans (interpretado por Tom Phelan, uma pessoa trans!) que foi abandonado pela família e acabou dentro do sistema de assistência social, a todo o momento sendo erroneamente tratado como uma mulher tanto pelo sistema, quanto pelas garotas que moram na casa, apesar dos esforços da responsável pelo lar adotivo, Rita (Rosie O’Donnel), para que se refiram a ele pelo pronome correto.

A importância da reação da família

Callie constantemente repreendia o irmão mais novo pelo seu jeito de se expressar, como pintar as unhas por exemplo. A principal preocupação dela era evitar as agressões físicas a Jude, tanto na escola, como nos lares adotivos por onde passaram. Essa atitude é muito familiar para muitas pessoas: ouvir pais, mães, irmãos, irmãs, tias, avós repreendendo pessoas LGBTQ+ com medo (às vezes real, às vezes não) de que sejamos hostilizados ou agredidos na “vida real”.

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The Fosters” trata essa questão com extrema elegância e compreensão quando Lena convence o mais novo que ao se reprimir, as pessoas acabam tendo vergonha de ser quem são, e isso é inaceitável. É maravilhoso assistir a experiência de um garoto de 13 anos com todo esse apoio da família. A mensagem que se tira da confiança e a coragem de Jude, após ser adotado por Stef e Lena, é que mesmo que o mundo inteiro esteja contra quem você é, se a sua família está com você, já é um grande alívio. E se outras famílias – na maioria dos casos, a biológica – não nos aceitam, nós construímos as nossas próprias com as pessoas que encontramos no caminho da vida.

Homofobia internalizada num relacionamento estável

Stef e Lena são o sonho de qualquer relacionamento. Elas têm uma dinâmica extremamente bem equilibrada, se comunicam abertamente o tempo todo e mesmo com as dificuldades do dia a dia, sempre tentam demonstrar o quanto se amam e o quanto uma faz a outra feliz, mantendo com os seus esforços uma casa linda, suas respectivas carreiras e uma família juntas. A vice-diretora sempre sonhou em se casar, mas a agente dizia não ter vontade de casar novamente após a separação. Mesmo assim, eventualmente Stef pede Lena em casamento.

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A policial não quis fazer parte dos detalhes do planejamento de seu casamento, e a todo o momento fazia pouco caso do vestido, decoração, flores. Stef chega a dizer que achava estranha a ideia de duas mulheres subirem ao altar para se casarem. A personagem de Polo teve uma criação religiosa, seu pai (Sam McMurray) tentava manter uma relação mínima, mas não aceitava a vida que a filha construiu com Lena. Em razão disso, ela percebe que a voz que ridicularizava o seu casamento em sua mente não era a dela, mas sim anos da criação recebida pela figura paterna.

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Homofobia internalizada ou interiorizada é a ideia imbricada profundamente nas pessoas de rejeição a relações homoafetivas e tudo a elas relacionado. Essas noções são perpetradas sistemicamente não apenas através da religião e pela família, mas pela sociedade de forma mais ampla através da política, das leis, da cultura, do sistema de saúde e outros fatores estabelecidos. Todos estamos expostos simultaneamente à heteronormatividade e à sua outra face, a homofobia. Com esse episódio, “The Fosters” nos mostra de forma bastante clara e eficiente que todos internalizam esses conceitos em algum nível, até mesmo quem está há anos num relacionamento homoafetivo. Tempos após contar para a família e amigos que é lésbica e ficar com Lena, Stef ainda teve que encarar esse sentimento que a levou a magoar sua parceira, chegando até a se cogitar o cancelamento do evento.

A educação dos filhos e a união da família

Mike (Danny Nucci), ex-marido de Stef e também policial, é extremamente respeitoso com os Adams Foster e apesar de seus problemas com o álcool, se mostra presente na vida do filho Brandon, e em geral respeita a autoridade e as decisões de Stef e Lena. Desde as primeiras temporadas os três são figuras parentais tão dinamizadas e coordenadas, que fica visível: sempre que qualquer decisão sobre Brandon precisa ser tomada, Stef é quem fala com o filho após consultar tanto a esposa quanto o ex-marido.

Em momento algum o policial questiona o direito de Lena como esposa de Stef em interferir na educação de Brandon, só exige que seja consultado antes. Quando colegas de trabalho dentro da polícia insinuam qualquer comentário sobre a família, no momento ele não demonstra sentir sua masculinidade questionada. Muito pelo contrário, parte em defesa das duas. Nada nessa relação é fácil ou perfeito, mas há uma bela sensação de que antes de qualquer coisa, a família precisa se manter unida.

Personagens pioneiros em representatividade LGBTQ+ nos games

The Fosters” encerrou sua história no último dia 06 de junho e já deixa saudades, mas já está confirmado o lançamento de um spin-off, chamado “Good Trouble”, que seguirá a jornada de Callie e Mariana para a vida adulta, mostrando como a forma como foram criadas afetam as pessoas que elas se tornarão no futuro.

Bredeweg, no dia do lançamento do episódio final, postou no Twitter:

“Todos nós amamos, todos nós nos machucamos, todos desmoronamos – mas se você tiver uma forte unidade familiar, vocês acompanharão um ao outro pelos difíceis desafios da vida, enquanto celebram os seus marcos. The Fosters era uma família americana, com valores americanos, que representam o sonho americano.”

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Crítica | Por Trás da Inocência – longa-metragem com potencial não explorado

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“Por Trás da Inocência” é um filme de 2021 que conta a história de Mary Morrison (Kristin Davis), uma famosa escritora de suspense, se preparando para embarcar em uma nova obra, a autora decide contratar uma babá para ajudar nos cuidados com as crianças.

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No entanto, a trama sinistra do livro começa a se misturar com a realidade. Mary seria vítima de uma perigosa intrusa, ou estaria imaginando as ameaças? Conforme o livro da escritora se desenvolve, a vida dos familiares é colocada em risco.

Quando assistimos a candidata a babá Grace (Greer Grammer) entrar pela porta, ela faz uma cara de psicopata à câmera. Clássico. E em uma de suas primeiras frases, a garota comportada até demais afirma: “Eu sou um pouco obsessiva”. E é neste momento que já conseguimos pensar no que vem pela frente.

O que mais incomoda nessa personagem é que ela foi fetichizada desde o início de “Por Trás da Inocência”. Ela parece ser constantemente usada para justificar a “nova” atração de Mary por mulheres, que até então nunca tinha acontecido. É como se Mary tivesse sido privada de todos os seus desejos e somente com a chegada dela tudo emergisse.

Soa familiar para vocês?

LesB Cast | Temporada 2 Episódio 02 – The Wilds e teorias para a segunda temporada

A diretora e roteirista Anna Elizabeth James tem a mão leve para a condução das cenas. Talvez ela tema que suas simbologias não sejam claras o bastante, ou duvide da capacidade de compreensão do espectador. De qualquer modo, ressalta suas intenções ao limite do absurdo: o erotismo entre as duas mulheres se confirma por uma sucessão vertiginosa de fusões, sobreposições, câmeras lentas e imagens deslizando por todos os lados, sem saber onde parar.

A escritora bebe uísque e fuma charutos o dia inteiro (é preciso colocar um objeto fálico na boca, claro), enquanto a funcionária mostra os seios, segura facas de maneira sensual e acidentalmente entra no quarto da patroa sem bater na porta. “Por trás da inocência” se torna um herdeiro direto da estética soft porn da televisão aberta por suas simplicidades e exageros. Ou seja, típico filme feito para agradar homens.

Este é o clássico filme sáfico que poderia ser muito bom, mas foi apenas mediano. Infelizmente, o longa só nos mostra mais uma vez o quanto ainda temos um longo caminho pela frente nessa indústria.

ANNE+: O Filme e o relacionamento de Anne e Sara em uma nova fase

“Por trás da inocência” está disponível para assistir na Netflix.

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LesB Cast | Temporada 2 Episódio 02 – The Wilds e teorias para a segunda temporada

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Fala LesBiCats, o LesB Cast está de volta com um novo episódio. Desta vez, vamos conversar sobre a série do Prime Video “The Wilds”, que retorna dia 6 de maio, o desenvolvimento das personagens ao longo da primeira temporada e PRINCIPALMENTE, o que esperamos do segundo ano da produção. Estão preparadas para nossas teorias?

Nesta edição contamos com a presença da nossa apresentadora Grasielly Sousa, nossa editora-chefe Karolen Passos, nossa diretora de arte Bruna Fentanes e nossa colaboradora França Louise. E aí, vamos conversar sobre “The Wilds”?

Se você gostar do nosso podcast, quiser fazer uma pergunta ou sugerir uma pauta, envie-nos uma DM em nossas redes sociais ou um e-mail para podcast@lesbout.com.br 😉

Créditos:

Lembrando que nosso podcast pode ser escutado nas principais plataformas como: Spotify, Apple Podcasts, Amazon Music e Google Podcasts.

Espero que gostem. Até a próxima!

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LesB Saúde | A descoberta tardia da sexualidade

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Com a evolução de se ter a cultura sáfica (sáfica aqui carrega o sentido de mulheres que se relacionam com outras mulheres) sendo representada em produções artísticas e na mídia como livros, filmes e séries, se observarmos bem, nesses espaços o tema, na maioria das vezes, vem sendo abordado com a descoberta da sexualidade durante a adolescência. E sim, é importante ter essas produções voltadas para a identificação do público juvenil, entretanto, também se faz importante discutir sobre as possibilidades dessa descoberta em outras fases da vida, esse texto tem a intenção de refletir sobre isso.

Diante das outras possibilidades da descoberta, podemos usar como exemplo o recente casal Gabilana (Gabriela e Ilana) que vem sendo bastante falado; as personagens são interpretadas por Natália Lage e Mariana Lima na novela “Um Lugar ao Sol”, da Rede Globo. Casal esse que conseguiu ficar junto na trama só depois de 20 anos após se conhecerem, depois dos desencontros da vida. Durante o desenvolvimento da história das duas podemos perceber como elas lidaram com a heterossexualidade compulsória, o medo do julgamento e de se permitirem vivenciar quem são de verdade.

Pro Mundo (Out!) | Um pouco sobre Ilana Prates de “Um Lugar ao Sol”

Devemos considerar também que, para além de toda a invisibilidade percebida na mídia, o nosso dia a dia também faz parte desse processo de reconhecimento. Estamos atentas para conhecermos e conversarmos com mulheres que vivem essa realidade depois de certa idade, sendo esta uma idade que a sociedade julga como “errada” para descobrir a sua sexualidade. Portanto, o que essas mulheres sentem depois que percebem que estão nessa situação?

A experiência de mulheres que passam por essa descoberta “tardia” não envolve só a descoberta em si, mas devemos olhar também para outras complexidades que vêm com isso, como o sentimento de invalidação da sua sexualidade, além do possível sofrimento causado depois de anos experienciando o que as impedem de viver plenamente o que sentem.

Review | Heartstopper – Primeira Temporada

A representação da mídia traz aqui um papel importante, já que provavelmente mulheres dessas vivências passam pelo questionamento “não existem pessoas como eu?” e indagações semelhantes. A sensação de reconhecimento, além da troca com outras mulheres que passam pelo mesmo, pode importar e fazer a diferença na vida de quem é atravessada por essas questões.

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Bombando

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