Hoje o LesB Out! completa quatro anos de existência e decidi quebrar a quarta parede (risos) e começar este texto agradecendo a todos vocês que nos acompanham, interagem conosco nas redes sociais – ou por aqui ou pelo e-mail – e confiam no trabalho que estamos realizando.
Este veículo de comunicação tem sido uma jornada incrível desde o dia um. E é de suma importância saber a diferença que ele faz na vida das pessoas que colaboram para que ele possa existir. O site surgiu da ideia de criar conteúdo de qualidade para o público feminino LGBTQIA+ e também de ser um espaço seguro para pessoas LGBTQIA+.
Temos precaução com todo conteúdo que levamos ao ar, realizando uma verdadeira curadoria. Aqui trabalhamos com fact-checking, em que todos os nossos conteúdos são verificados, passando por processos de edição e combatendo as fake news. Ademais, nos preocupamos em oferecer um conteúdo transparente sempre em busca de pautas que possam agregar e gerar debates na comunidade feminina LGBTQIA+.
Estamos e estaremos sempre atentas e prontas para agregar positivamente a conversa na nossa comunidade!
Dito isto, gostaria de anunciar três novidades que nos dedicaremos, além das que vocês já estão acostumados, pelos próximos meses.
1. Revista 2.0
SIM! Teremos uma segunda edição da Revista LesB Out!. No início do mês de junho de 2021 anunciamos que lançaríamos a primeira revista brasileira feita por mulheres LGBTQIA+ para mulheres LGBTQIA+, como uma extensão do nosso site. A revista foi ao ar em agosto e já alcançamos mais de 5000 visualizações. Com isso em mente, decidimos fazer mais uma edição e em breve divulgaremos a data.
2. Podcast Semanal e Edições Especiais
Em junho o nosso LesB Cast, que retornou recentemente, permanecerá sendo semanal e saindo todos os domingos às 19 horas. A princípio, o podcast aconteceria de 15 em 15 dias, após o mês do aniversário, contudo, decidimos mantê-lo como semanal trazendo diferentes temas para debatermos.
Estamos sempre pensando na melhor forma de trazer conteúdo para vocês e por esta razão, o LesB Cast ganhará dois quadros especiais: o primeiro, com o nome de “Extrato da Semana”, será um podcast semanal, tendo início no dia 3 de junho, de até 25 minutos, em que falaremos sobre as novidades da semana no universo de cultura pop LGBTQIA+. O segundo será um quadro mensal com o nome de “O que estamos lendo?”, em que conversaremos brevemente, por no máximo 25 minutos, sobre o livro do mês do nosso Clube do Livro.
Além dessas novidades, teremos outras que em breve anunciaremos para vocês – fica o mistério (risos). Espero que tenham gostado! E novamente, obrigada por tornarem a existência do LesB Out! uma realidade.
Karolen Passos é a co-criadora do LesB Out!. Jornalista, marketeira, mestranda sofredora e crítica há mais de dez anos, ela já escreveu para diversos sites. Fã de séries desde Gilmore Girls, a carioca têm mais de 50 títulos interminados na grade atual de séries e uma coleção crescente de quadrinhos (será se já leu tudo?). Hoje mora na Bahia e é mãe de três gatos: Bruce Wayne, o BAT-CAT, Alex Karev, o hiperativo e Meredith Grey, a antissocial.
“Sterling Point” é, antes de tudo, um drama familiar e um daqueles que conseguem transformar uma descoberta inesperada em uma história sobre pertencimento, luto e todas as vidas que poderiam ter existido. A série acompanha Annie Jacobson (Ella Rubin), uma jovem de 17 anos que vive em Nova York com seu irmão gêmeo, Connor (Keen Ruffalo), e o pai adotivo (Jay Duplass). Depois da morte do avô por parte de mãe, os dois descobrem que herdaram uma pequena ilha em um lago no Canadá, deixada para eles por um avô que nunca conheceram.
Ao deixar a agitação de Nova York para trás e chegar à pequena comunidade canadense, Annie descobre que a herança guarda um segredo ainda maior: ela e Connor têm uma irmã que nunca souberam que existia: Ramona (Amélie Hoeferle), que também não fazia ideia da existência dos dois. Mas a relação entre eles não é determinada pelo sangue: Annie e Connor foram adotados, enquanto Ramona é filha biológica da mesma mulher que eles perderam tão cedo. A mãe deles morreu quando eles tinham apenas dois anos, então, para Annie, essa viagem representa muito mais do que conhecer uma nova cidade: é a primeira oportunidade de descobrir quem foi a mulher que ela perdeu tão cedo.
A partir desse encontro, a série começa a desvendar uma verdadeira teia de segredos familiares, enquanto Annie tenta entender não apenas quem é Ramona, mas também quem foi sua mãe e como teria sido sua vida se algumas escolhas do passado tivessem sido diferentes. É justamente essa busca que faz de “Sterling Point” uma produção tão envolvente: a série não fala apenas sobre descobrir uma família, mas sobre tentar reconstruir uma história da qual você nunca teve todas as peças.
E é nesse cenário que conhecemos Ramona. Lésbica, sarcástica e extremamente retraída, ela é praticamente o oposto de Annie. Enquanto Annie chega à ilha cheia de perguntas e vontade de conhecer tudo aquilo que perdeu, Ramona passou a vida acreditando que não precisava de ninguém. Ela tem problemas de confiança, mantém as pessoas à distância e nunca sentiu que realmente tinha uma família. Depois da morte do avô, a única pessoa que ela conhecia como família, essa sensação de estar completamente sozinha fica ainda mais forte. Por isso, descobrir que existem duas pessoas ligadas à sua mãe que ela nunca soube que existiam não é necessariamente uma boa notícia de imediato, é mais uma coisa que Ramona precisa aprender a processar.
E é impossível falar de Ramona sem falar de Oona (Bo Bragason). Melhores amigas de longa data, as duas carregam uma intimidade que vai muito além da amizade e, aos poucos, percebem que existe algo a mais entre elas. O romance funciona porque não nasce de uma grande tragédia ou de um conflito sobre sexualidade: é uma história de descoberta, desejo, carinho e também de inseguranças. Oona é direta, independente e flerta sem medo, enquanto Ramona precisa lidar com tudo o que está acontecendo em sua vida ao mesmo tempo. Oona é uma das poucas pessoas capazes de atravessar a barreira que Ramona construiu ao seu redor, e a para uma personagem que passou tanto tempo acreditando que não precisava de ninguém, se permitir gostar de alguém é também uma forma de vulnerabilidade.
No fim, “Sterling Point” é uma série sobre pessoas tentando descobrir onde e com quem realmente se sentem em casa. Annie chega à ilha procurando respostas sobre a mãe e encontra uma irmã; Ramona passa a vida acreditando que não tem família e, de repente, precisa lidar com duas pessoas que carregam a mesma ligação com a mulher que ela teve como mãe; e, no meio de tudo isso, surgem relações que desafiam as certezas que cada personagem tinha sobre a própria vida. É um drama familiar maravilhoso, cheio de emoção, segredos, descobertas e personagens que vão ganhando novas camadas conforme a história avança. E, para quem gosta de acompanhar uma boa personagem lésbica, Ramona é definitivamente uma das melhores razões para dar uma chance à série.
“Três Graças” acompanha a história de três gerações de mulheres unidas por laços familiares complexos e marcadas por escolhas que atravessam o tempo. Entre segredos do passado, disputas por poder, amores proibidos e conflitos que parecem se repetir de mãe para filha, a novela constrói uma trama repleta de reviravoltas, explorando como traumas, expectativas e ambições moldam o destino de uma família inteira. É uma história sobre herança emocional, mas também sobre a coragem de romper ciclos e escrever um futuro diferente.
A produção chama atenção justamente por equilibrar o melodrama clássico com discussões mais atuais sobre identidade, pertencimento e liberdade afetiva. Ao mesmo tempo em que acompanha romances turbulentos, traições e embates familiares, “Três Graças” também se preocupa em mostrar como os vínculos podem servir tanto como prisão quanto como acolhimento. E é nesse contexto que a história de Juquinha e Lorena ganha ainda mais força.
Lorena, interpretada por Alanis Guillen, vive o peso de crescer em uma família conservadora, especialmente por conta da relação complicada com o pai. Sensível e emocionalmente contida, ela passa boa parte da trama tentando equilibrar quem é com o que esperam dela. Já Juquinha, vivida por Gabriela Medvedovsky, surge como o oposto: segura de si, espontânea e completamente confortável com a própria sexualidade. A dinâmica entre as duas funciona justamente porque nenhuma tenta apagar a outra, Juquinha entende os medos de Lorena, mas também deixa claro o quanto viver escondida pode machucar.
O relacionamento delas cresce aos poucos, entre mensagens trocadas, encontros discretos e uma tensão romântica que rapidamente conquistou a internet. O casal, apelidado carinhosamente de “Loquinha” pelos fãs, ganhou força justamente pela naturalidade com que o romance foi construído. Não há exageros nem discursos artificiais: existe carinho, desejo, apoio e, principalmente, a sensação de que as duas encontraram um espaço seguro uma na outra.
Um dos pontos mais bonitos da trajetória de Lorena e Juquinha é perceber como o amor entre elas também se transforma em acolhimento. Juquinha apresenta Lorena a uma família sem preconceitos, enquanto Lorena finalmente encontra coragem para falar sobre quem ama. Entre beijos roubados, conversas sinceras e planos para o futuro, a novela entrega momentos simples, mas muito significativos para quem acompanha histórias sáficas há anos na televisão brasileira.
“Três Graças” pode até seguir a estrutura clássica de uma novela, mas Juquinha e Lorena conseguiram transformar sua história em algo especial para o público LGBTQIA+. Um casal que nasceu devagar, ganhou força pela química e acabou se tornando um dos grandes assuntos da novela, provando que romances entre mulheres também podem ocupar espaço no horário nobre e mobilizar fãs apaixonadas.
Assumir que há competitividade entre as mulheres LGBTQIA+ é perceber que, infelizmente, essa realidade existe entre as mulheres da comunidade, mas enfrentar isso nos dá uma chance de entender e repensar essa atitude, de como estamos lidando com a companhia das outras, por que isso acontece e como afeta nossa saúde mental.
Quando falamos de saúde mental, na maioria das vezes a associamos a processos individuais, mas saúde mental é muito mais do que isso, como estamos trazendo em vários textos aqui na coluna de Saúde Mental do LesB Out!. Pensando na saúde mental de mulheres LGBTQIA+, há temas específicos que surgem diante das nossas vivências e que dificilmente estão em revistas científicas ou são temas de estudos feitos na área acadêmica, mas que estão sendo discutidos e percebidos por quem vive essa realidade.
Quem nunca frequentou um espaço (o famoso rolê) em que estejam outras mulheres da comunidade LGBTQIA+ e em que, mesmo antes de trocarem palavras (e de chegarem a fazer isso, pois, muitas vezes, as conclusões são tiradas por meio de olhares), acaba se criando um espaço de competição? Essa guerra silenciosa que é armada evidencia alguns fatores que resultam no fortalecimento de estereótipos que tanto lutamos para extinguir.
Nessa disputa presencial entram tópicos como: quem está gastando mais dinheiro, quem está acompanhada da mulher mais bonita (e, se for uma mulher — por exemplo, se for um homem acompanhando uma mulher bissexual —, essa mulher pode sofrer até silenciamento por causa disso) e até questões sobre quem está vestindo o melhor look. Então, quando comparações financeiras e físicas são feitas, cria-se uma situação que abre espaço para que pequenas violências sejam cometidas umas contra as outras, mesmo que de forma velada.
Consequentemente, isso deixa explícito o quanto essa competitividade é um empecilho para o fortalecimento de nós, mulheres LGBTQIA+, tanto de forma coletiva quanto individual. Temos o direito de sentir afeto e acolhimento umas com as outras e, enquanto grupo, politicamente falando. Afastar-nos desse lugar de afeto que merecemos reforça as ações estereotipadas que nos agridem. Desse modo, é importante reforçar a importância de não reproduzir essas atitudes que influenciam nossa saúde mental, para, assim, gerar acolhimento de todas as formas enquanto comunidade.