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Literatura

Nove poetas LGBTQIA+ que valem a pena serem conhecidas

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Quando pensamos em poesia, os nomes que nos vêm à cabeça geralmente são masculinos: Carlos Drummond de Andrade, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, Edgar Allan Poe, Walt Whitman etc, estes comumente mais estudados e valorizados no cenário literário. Poucos são os nomes femininos: Cecília Meireles, Hilda Hilst, Olga Savary. E (quase) inexistentes são as poetas LGBTQIA+ que não são apagadas e excluídas pelo cânone literário (conjunto de obras consideradas referências para estudos, por sua suposta qualidade e estética superiores).

Pensando nisso, selecionamos nove poetas sáficas que valem a pena serem conhecidas. Confira:

1. Safo de Lesbos

Começamos nossa lista com a poeta cuja reputação de amar outras mulheres afetou profundamente a linguagem das gerações posteriores. Isso porque Safo, que nasceu entre 630 e 612 antes de Cristo, numa ilha chamada Lesbos, na Grécia, deu origem às palavras sáfica (e derivados), a partir de seu nome, e lésbica (e derivados) a partir do lugar de onde veio, ambas designadas para rotular mulheres que se atraem romanticamente e/ou sexualmente por pessoas do mesmo gênero.

Dentre as autoras que estão citadas aqui, Safo foi a mais apagada historicamente. Pouco se sabe sobre sua vida, ou mesmo sobre sua poesia, ainda que seja classificada como uma das maiores poetas de todos os tempos. Boa parte do seu trabalho foi destruído por líderes religiosos, numa tentativa (vã) de deixá-la no passado.

“[…]

Sinto um fogo sutil correr de veia em veia

por minha carne, ó suave bem querida,

e no transporte doce que a minha alma enleia

eu sinto asperamente a voz emudecida.”

2. Dia Nobre

Nascida em Juazeiro do Norte, na região do Cariri cearense, Dia Nobre é Ph.D em História e atualmente trabalha como professora universitária em Petrolina, Pernambuco. Sua obra é composta por publicações não-ficcionais, ficcionais e poéticas. Seu primeiro livro de poesias “Todos os meus humores“ veio à luz em 2020, nele, a autora fala abertamente sobre saúde mental, homossexualidade e dos abusos sofridos pelas mulheres numa sociedade que tende a nos excluir. 

Dia Nobre é ainda autora do livro “No útero não existe gravidade”, e participa da antologia “Antes que eu me esqueça – 50 autoras lésbicas e bissexuais hoje”. 

“eu sempre quis ser daquelas pessoas que apontam para o céu e sabem os nomes das constelações, ela me disse, naquele dia no pátio do aeroporto. mas não teve coragem de pegar na minha mão nem de me pedir pra ficar.”

3. Raíssa Éris Grimm

Ela “é lésbica, com ascendente em transfeminismo e lua em poesia”. Assim é definida a poeta florianopolitana Raíssa Éris Grimm. A autora, que hoje vive em Fortaleza, escreve desde os 14 anos como um processo de entender as próprias emoções, principalmente depois de compreender-se como uma mulher duplamente marginalizada — transgênero e lésbica.

A poética de Raíssa é erótica e de resistência, e pode ser encontrada em seu Instagram, bem como reflexões acerca de transgeneridade, translesbianidade e relacionamentos não-monogâmicos.

“A promiscuidade de minha corpa

é tão imensa

que os calores do desejo lhe tomam

dos pés

à língua:

eriçando

cada poro

num entrelace entre danças,

orgasmos

e lutas

conspirando

liberdade

com todas as amantes

que cruzam meu caminho.”

4. Angélica Freitas

Além de poeta, a gaúcha Angélica Freitas é tradutora, jornalista e amante de café. Comprometida com causas do feminismo, sua primeira publicação foi em 2007, com a obra “Rilke Shake”, seguido por “Um útero é do tamanho de um punho” (2012), vencedor do prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte em seu ano de lançamento. Em 2020, depois de um longo hiato, Freitas voltou ao cenário literário com “Canções de Atormentar”. Em suas palavras, “ser poeta é uma maneira de estar no mundo” e é no mundo que está sua poesia, traduzida na Argentina, Alemanha, Espanha, Estados Unidos, França e México.

“a mulher é uma construção

deve ser

a mulher basicamente é pra ser

um conjunto habitacional

tudo igual

tudo rebocado

só muda a cor

 particularmente sou uma mulher

de tijolos à vista

nas reuniões sociais tendo a ser

a mais malvestida.”

5. Thalita Coelho

Capricorniana com ascendente em leão, apaixonada por gatos, celíaca e vegetariana, Thalita Coelho é também escritora, professora de português e doutora em literaturas. Sua primeira publicação foi aos dez anos, a partir de uma atividade de escrita na escola.

Seu primeiro livro, “Terra Molhada”, reúne um conjunto de poesias que transbordam erotismo e narram o íntimo de mulheres que amam mulheres. Thalita Coelho também foi finalista do 63º Prêmio Jabuti, a mais importante premiação literária do Brasil, com sua obra “Desmemória” (2020).

“[…]

todo o meu escrito é mulher, ou melhor,  toda a minha escrita é mulher, pra mulher, de mulher, em mulher. mesmo que não se saiba o que é. essas letras são mulheres, a tinta impressa será mulher, o toque no teclado foi mulher, os olhos que lêem são mulheres.

tudo que sai de mim se esvai pra preencher nós. mulher. minha dor é mulher. minha amor é mulher. minha pensar é mulher. minha escrever, também mulher. minha verbo é verba que sustenta o ser mulher, a poesia nada poética dessa linharada escrita por uma mulher que não sabe fazer poesia mas sente a poesia na carne. e sabe quem é, e é mulher, visível, saída da terra enterrada, saída da casa trancada, saída da sombra.

e se perguntarem se importa ser mulher eu digo

sou

e se perguntarem o que é mulher eu respondo

sou

e se mandarem calar a mulher eu grito

sou

e saio mulher,

de mãos dadas com outra.”

Revista LesB Out!

6. Larissa Campos

Autora de “Bagagem” (2019), Larissa Campos é também orientadora literária e pesquisadora independente de escrita curativa, uma prática de autoconhecimento que consiste em expressar, através da escrita, os pensamentos que você não compartilharia com ninguém. Seu desejo? Ajudar outras mulheres a colocarem suas criações no mundo.

“há tanto

no não dito

naquele toque de pernas

embaixo da mesa —

desculpa, meu frio

quer se esconder em você.”

7. Elayne Baeta

Baiana, virginiana, com ascendente em leão e lua em libra, Elayne Baeta é queridinha entre as leitoras sáficas da geração Z. Sua primeira publicação, “O amor não é óbvio“, foi o primeiro romance lésbico juvenil a integrar a lista de mais vendidos da revista Veja e frequentemente encabeça a lista de romances lésbicos mais vendidos na Amazon.

Seu principal incentivo para escrever? A falta de representatividade de meninas que amam meninas nas prateleiras das livrarias. Sua primeira publicação poética foi em 2021, com a obra “Oxe, Baby“.

“Como poderia eu,

uma menina,

segurar publicamente

a mão de uma menina

e sentir qualquer outra coisa

que não seja orgulho”

8. Verônica Ramalho

Natural de Santos, em São Paulo, a escritora bissexual Verônica Ramalho enxerga a literatura como uma experiência, que ela traduz em poesias sensoriais e subversivas, que, aliás, é a proposta de sua obra mais recente — “Três Línguas” — “subverter a língua é um desafio, um jeito de superar o risco, de tensionar as estruturas”. Ramalho já dirigiu curtas-metragens e trabalhou como cenógrafa para a televisão, teatro e cinema, atualmente atua como escritora e tradutora e se aventura na escrita de seu terceiro livro, dessa vez, uma obra em prosa.

“Na vírgula mora uma possibilidade, respiro, na

vírgula acaba algo sem que nada acabe, a

vírgula, obliteração.

No rabo da vírgula me balanço, brinco, anseio,

no rabo da vírgula volta a luz. O mais

escuro é outra parte, pausa, parte, parte

de algo será parte do quê? O escurecido é

outro ponto, outra parte.”

9. Elizabeth Bishop

Elizabeth Bishop nasceu em Worcester, no estado de Massachusetts, região nordeste dos Estados Unidos. Em 1951, veio para o Brasil, aos 40 anos, em uma viagem de navio pela América do Sul, sua intenção era ficar algumas semanas, mas uma grave alergia adiou sua partida, e o encontro com o grande amor da sua vida — Maria Carlota Costellat Macedo Soares (Lota) — estendeu, por mais de uma década, sua permanência em nossas terras.

Elizabeth foi vencedora do Pulitzer Prize, em 1956, pelo livro “A Cold Spring” (1955), e atuou como tradutora dos (já citados) poetas brasileiros Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Vinícius de Moraes e Carlos Drummond de Andrade, além de alguns contos de Clarice Lispector.

 “A arte de perder não é nenhum mistério

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério

[…]

– Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo

que eu amo) não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser mistério

por muito que pareça (Escreve!) um desastre.”


E vocês? Gostam de poesia? Qual poeta faltou em nossa lista?

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Literatura

Resenha | O Diabo Veste Cor-de-Rosa: uma fantasia sáfica que poderia ser muito mais cativante

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Uma diabinha, seis desejos e uma ex-namorada

Em “O Diabo Veste Cor-de-Rosa”, de Alexandria Bellefleur, Samantha Cooper está passando por um daqueles dias em que parece que absolutamente tudo deu errado. Depois de ver o relacionamento chegar ao fim e sentir que sua vida saiu completamente dos trilhos, ela acaba presa em um elevador com Daphne, uma demônia que tem uma proposta difícil de recusar: seis desejos em troca da alma de Sam.

A premissa é, no mínimo, divertida. Sam acredita que precisa de apenas um desejo para recuperar a ex-namorada e reconstruir a vida que imaginava ter. O problema é que Daphne não parece exatamente interessada em facilitar esse plano. E é a partir dessa dinâmica que o livro tenta construir sua comédia romântica sáfica.

A obra foi publicada no Brasil pela Harlequin Books em 2026 e foi traduzida por Alda Lima. A editora apresenta o livro como uma comédia romântica sáfica entre uma demônia e uma mulher de coração partido.

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A premissa é melhor do que a execução

A ideia de uma mulher de coração partido fazendo um acordo com uma demônia para recuperar a ex tem muito potencial. Os desejos abrem espaço para diferentes possibilidades de futuro e permitem brincar com aquilo que Sam acredita que precisa para finalmente ter a vida perfeita.

Também existe uma proposta interessante por trás disso tudo: conforme Sam tenta chegar ao futuro que imagina querer, ela acaba sendo colocada diante de possibilidades que fazem com que enxergue a própria vida de outra maneira. Daphne funciona justamente como essa presença que bagunça os planos de Sam e impede que a história seja simplesmente uma sequência de desejos realizados.

E, para mim, Daphne é facilmente uma das partes mais interessantes do livro.

Ela é debochada, charmosa e tem uma dinâmica muito mais intrigante do que a própria Sam. O problema é que a história é contada pela perspectiva de Sam, então passamos muito mais tempo acompanhando a tentativa dela de recuperar Hannah do que conhecendo melhor Daphne.

E é aí que a leitura começa a perder força.

O problema é que Sam é muito cansativa

Sam é uma personagem bastante fácil de entender. Ela acabou de perder alguém que acreditava ser o amor da sua vida e está desesperada para recuperar aquilo que acredita ter perdido. Só que compreender uma personagem não significa necessariamente gostar de acompanhá-la.

Durante boa parte da leitura, a insistência de Sam em reconquistar Hannah acaba se tornando cansativa. Para mim, esse é o principal problema do livro: a protagonista fica presa demais à ideia de voltar para a ex, e isso faz com que a história demore a engrenar de verdade.

O mais frustrante é perceber o quanto Sam se coloca em segundo plano nessa tentativa de recuperar o relacionamento. Ela quer tanto voltar para Hannah que, muitas vezes, parece não perceber o quanto as duas querem coisas diferentes e o quanto aquela relação a colocava para baixo.

Isso até funciona como parte da proposta da história, porque existe uma discussão interessante sobre relacionamentos que não fazem bem e sobre como estar apaixonada pode dificultar a percepção de que aquela relação talvez não seja aquilo que imaginávamos. Mas, como experiência de leitura, acompanhar esse processo durante tanto tempo torna a narrativa arrastada.

E se a história tivesse dado mais espaço para Daphne?

Aqui está uma das minhas maiores frustrações com o livro: eu queria muito mais de Daphne.

A dinâmica entre ela e Sam tem potencial para ser justamente o coração de uma comédia romântica sáfica. Daphne é uma personagem muito mais intrigante e sua própria história parece ter possibilidades interessantes. Só que a narrativa dedica muito mais atenção à obsessão de Sam pela ex do que à construção dessa nova conexão. Essa escolha faz com que o romance não seja tão cativante quanto poderia ser.

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Vale a pena ler?

Se a ideia de uma comédia romântica sáfica com uma demônia, desejos e uma protagonista tentando lidar com um coração partido parece divertida para você, “O Diabo Veste Cor-de-Rosa” tem uma premissa criativa e alguns elementos bem interessantes. A classificação bibliográfica também coloca a obra como ficção, romance paranormal e romance LGBTQIA+, com demônios entre as temáticas.

Mas, se você está procurando principalmente um romance sáfico muito envolvente, talvez a leitura deixe a desejar. Para mim, a história demora demais para se libertar da insistência de Sam em reconquistar Hannah, enquanto a relação que poderia ser muito mais interessante acaba recebendo menos espaço do que eu gostaria.

A ideia é boa, a proposta tem potencial e Daphne é uma personagem que eu gostaria de ter conhecido muito mais. Só que a protagonista e a condução do romance fizeram com que a leitura fosse mais cansativa do que divertida em vários momentos.

“O Diabo Veste Cor-de-Rosa” é uma história legal, mas, como romance, não conseguiu ser tão cativante quanto a própria premissa prometia.

  • História
  • Personagens
2.5

Sinopse

Samantha Cooper está tendo um dia infernal.

Primeiro, a namorada parte seu coração em um milhão de pedaços. Depois, ela recebe um ultimato para desocupar o apartamento que um dia dividiram. Para completar, se vê presa em um elevador precário com uma loira baixinha que cheira muito bem, se veste exclusivamente de rosa e, por acaso, é um demônio.

Daphne não é o que Sam espera de um ser maligno. A única coisa que denuncia sua verdadeira natureza é a oferta irrecusável que faz: seis desejos em troca de uma coisinha boba ― a alma de Sam.

Sentindo que não tem mais nada a perder depois de o amor de sua vida ter lhe dado um pé na bunda, Sam fecha o negócio, certa de que consegue enganar aquela Barbie demoníaca e manipuladora. Afinal, ela só precisa de um desejo para reconquistar a ex, certo?  Errado.

Porque Sam não é a primeira alma com quem Daphne faz um acordo. Não é nem a noningentésima. A cada novo pedido, Daphne oferece à condenada vislumbres de uma vida perfeita, sem ter a menor intenção de deixar o sonho dela virar realidade.

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Literatura

Resenha | Foi Mal, Cara – um romance sobre descobrir que nunca é tarde para mudar a própria história

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Ficha Técnica
Livro: Foi Mal, Cara
Autora: Taleen Voskuni
Editora: Astral Cultural
Número de Páginas: 388
Ano de Lançamento: 2024


Existe um momento na vida em que tudo parece estar exatamente onde deveria. Você tem um relacionamento estável, uma carreira consolidada e um futuro praticamente desenhado. Mas e quando, em vez de conforto, esse roteiro começa a provocar dúvidas? É justamente desse sentimento que nasce “Foi Mal, Cara”, de Taleen Voskuni, um romance sáfico que vai muito além da história de amor e entrega uma narrativa sobre identidade, pertencimento e a coragem de recomeçar.

Nareh tem 27 anos e acredita que o próximo passo lógico de um relacionamento de cinco anos seria o casamento. Só que, quando o tão esperado pedido finalmente acontece, a reação dela não é felicidade: é um enorme vazio. Enquanto o namorado viaja a trabalho, os dois decidem dar um tempo, e Nareh aceita o convite da mãe para participar de eventos voltados à comunidade armênia, na esperança de conhecer um “bom rapaz armênio”. O problema, ou talvez a solução, é que quem realmente chama sua atenção é Erebuni, uma ativista apaixonada pela preservação da cultura armênia.

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O romance entre as duas acontece de forma rápida, quase impulsiva, e talvez esse seja um dos poucos pontos que podem incomodar alguns leitores. A conexão entre Nareh e Erebuni se desenvolve em poucas semanas, deixando pouco espaço para um aprofundamento mais gradual da relação. Ainda assim, o foco do livro nunca parece ser apenas o romance.

Na verdade, “Foi Mal, Cara” usa essa paixão como ponto de partida para contar uma história muito maior. Ao longo da narrativa, Nareh não descobre apenas uma nova possibilidade de amar, mas também uma parte de si mesma que passou anos ignorando. Filha de um pai que fazia questão de se afastar das próprias origens armênias e evitava qualquer conversa sobre o genocídio e a história de seu povo, ela cresceu acreditando que manter distância dessa cultura era algo positivo. Depois da morte do pai, esse afastamento ganha um peso ainda maior: aproximar-se das próprias raízes parece, de certa forma, uma traição à memória dele.

É bonito acompanhar esse processo porque ele não acontece de uma hora para outra. Nareh é completamente leiga sobre a própria história, faz perguntas que muitos leitores talvez também fariam e, aos poucos, entende que existir enquanto armênia também é um ato de resistência. A autora transforma esse aprendizado em uma jornada extremamente humana, mostrando que identidade também é algo que se constrói.

Nesse sentido, o livro funciona muito mais como uma história sobre pertencimento do que como uma história romântica. Há muitas conversas sobre memória, preservação cultural, xenofobia e ativismo. Inclusive, conforme Nareh passa a enxergar sua própria cultura com outros olhos, ela também começa a perceber situações de preconceito que antes naturalizava em seu trabalho como repórter de televisão.

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Esse talvez seja o maior mérito da obra: mostrar que descobrir quem você é não acontece isoladamente. A sexualidade de Nareh caminha lado a lado com sua reconexão cultural. Ela nunca havia sentido necessidade de se assumir bissexual porque estava em um relacionamento com um homem, e é somente ao conhecer Erebuni que percebe quantas partes de si mesma permaneceram adormecidas por conveniência, medo ou simples falta de oportunidade.

É fácil olhar para Nareh e enxergá-la como uma protagonista indecisa. Em muitos momentos, ela realmente parece não saber qual caminho seguir. Mas a história deixa claro que essa indecisão nasce de um processo profundamente humano: ela está desmontando uma vida inteira que acreditava ser a certa. Questionar um relacionamento de cinco anos, enfrentar expectativas familiares, revisitar o luto pelo pai e descobrir uma nova identidade aos 27 anos não são mudanças pequenas e o livro trata tudo isso com bastante empatia.

Erebuni, por sua vez, representa justamente esse convite para enxergar outras possibilidades de vida. Ela desafia Nareh, a confronta e amplia sua visão de mundo sem nunca roubar o protagonismo da narrativa. É impossível separar a influência dela da transformação vivida pela protagonista.

Se existe um aviso importante sobre “Foi Mal, Cara”, é que ele talvez não agrade quem procura um romance leve e despretensioso. A história dedica muitas páginas à cultura armênia, ao contexto histórico do povo armênio e às discussões sobre preservação da memória. Para alguns leitores, isso pode tornar a leitura mais lenta. Para outros, é justamente o que faz o livro se destacar entre tantos romances contemporâneos.

No fim das contas, “Foi Mal, Cara” é uma história sobre entender que nunca é tarde para descobrir quem você realmente é. Nunca é tarde para questionar escolhas antigas, revisitar suas origens ou admitir que o caminho que parecia perfeito talvez nunca tenha sido o seu.

  • História
  • Personagens
4

Sinopse

“Um romance caloroso e sagaz, que transborda química.” (DAHLIA ADLER, AUTORA DE COOL FOR THE SUMMER)

UMA MULHER REDESCOBRE SUAS RAÍZES E ACEITA O QUE — OU QUEM — REALMENTE QUER NESTE DELICIOSO ROMANCE QUEER.

Após cinco anos de namoro, algumas coisas são esperadas, como o tão sonhado pedido de casamento. Mas definitivamente não como o que Nareh, uma jovem armênia-americana, recebeu. Quando seu então namorado se ajoelha em um restaurante cheio de gente bêbada para pedi-la em casamento, ela percebe que talvez seja o momento de encontrar uma pessoa que esteja mais alinhada com a ideia que tem de romantismo. É quando a mãe de Nareh entra em cena. Munida de uma planilha cheia de nomes de homens — todos de origem armênia, claro —, ela convence a filha a participar do Explore a Armênia, um evento que enaltece a cultura de seu país de origem. Mas não é o médico ou o engenheiro que chama a atenção de Nareh, e sim Erebuni, uma mulher linda e imersa na preservação da identidade armênia. Erebuni ajuda Nareh a enxergar as belezas da cultura que compartilham e faz com que ela se sinta compreendida de um modo que nunca experimentou antes. Só há uma questão: Nareh ainda não se assumiu bissexual. O tempo está passando e, com o jantar de encerramento do evento se aproximando, ambos os mundos dela — sua família e o sentimento que nutre por Erebuni — inevitavelmente se chocarão. Mas Nareh não está mais disposta a abrir mão da própria felicidade e de quem verdadeiramente é.

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Literatura

Resenha | Atmosfera – nem todo amor precisa gritar para ser inesquecível

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Ficha Técnica
Livro: Atmosfera
Autora: Taylor Jenkins Reid
Editora: Paralela
Número de Páginas: 336
Ano de Lançamento: 2025


“Atmosfera” é, de longe, o livro mais contido, e talvez mais ousado emocionalmente, de Taylor Jenkins Reid. Ao contrário de Evelyn Hugo ou Daisy Jones, que envolvem o leitor já nas primeiras páginas com escândalos, fama e intensidade, “Atmosfera” escolhe o caminho do silêncio, da delicadeza, do ritmo lento. E, para alguns leitores, isso pode ser um convite à contemplação… ou um obstáculo à imersão.

Ambientado nos anos 1980, em plena corrida espacial, o romance acompanha Joan Goodwin, uma cientista apaixonada pelo universo e pela própria rotina, até que um anúncio da NASA muda o rumo de tudo. Ela é selecionada para um programa de treinamento que pode levá-la ao espaço e, junto a isso, a novos laços, descobertas e sentimentos que nunca imaginou viver.

O que torna Atmosfera especial não é apenas o pano de fundo científico e histórico, mas a humanidade presente em cada camada da história. Joan é reservada, metódica, e tem uma relação cheia de silêncios com a irmã, mas cheia de amor com a sobrinha Frances (uma das relações mais emocionantes e constantes do livro). Ao lado dela, conhecemos Vanessa Ford, uma engenheira brilhante e misteriosa, com quem Joan vive um romance proibido, maduro e sutil. A relação das duas é construída com tanto cuidado, sensibilidade e realismo, que conquista sem precisar de grandes gestos ou cenas explosivas.

A descoberta da sexualidade de Joan já na vida adulta é tratada com delicadeza e profundidade. É bonito ver uma história onde a orientação sexual não é um “plot twist”, mas uma parte natural da jornada de autoconhecimento: ainda mais em um ambiente como o da NASA dos anos 80, onde ser mulher já era uma batalha, imagine ser uma mulher queer.

Mas apesar de tudo isso, “Atmosfera” não é um livro fácil. A narrativa demora a engatar (e engata mesmo só depois da página 100). O início pode parecer frio, técnico, quase distante e é preciso paciência para alcançar as camadas emocionais que vêm depois. O final, com seu tom aberto e quase abrupto, também pode deixar a sensação de que algo ficou faltando, especialmente sobre o destino das personagens após os acontecimentos da missão espacial.

Ainda assim, é uma história que vale a pena ser apreciada. Porque o livro não quer entregar respostas fáceis. É sobre o que nos move e o que nos prende. Sobre correr atrás dos nossos maiores sonhos e, ao mesmo tempo, lidar com os afetos cotidianos, com as dores da perda, com a responsabilidade de amar, mesmo quando isso significa não escolher o amor em primeiro lugar.

Com representatividade sáfica madura, Atmosfera fala sobre o amor que nasce no silêncio. Sobre mulheres que vivem intensamente, mesmo quando não dizem tudo em voz alta. Pode não ser a história mais imersiva de Taylor Jenkins Reid, mas ainda é profundamente tocante. Se você tiver paciência para ouvir o que não é dito, vai encontrar aqui uma das histórias mais sensíveis da autora.

  • História
  • Personagens
5

Sinopse

Neste romance épico ambientado na Nasa dos anos 1980, Taylor Jenkins Reid ― autora best-seller do New York Times com os aclamados Os sete maridos de Evelyn Hugo e Daisy Jones and the Six ― nos desafia a questionar os limites que estamos dispostos a romper para viver e amar verdadeiramente.

Joan Goodwin é obcecada pelo Universo desde que se entende por gente. Atenciosa e reservada, ela está satisfeita com a vida de professora universitária e como tia de Frances, sua sobrinha precoce. Isso até se deparar com um anúncio da Nasa à procura de mulheres cientistas interessadas em integrar o primeiro projeto do programa Ônibus Espacial. De repente, tudo o que Joan mais quer é ser uma das poucas pessoas a ir para o espaço.

Selecionada entre milhares de candidatas, Joan inicia o treinamento no Centro Espacial Johnson, em Houston, no verão de 1980 junto a um grupo excepcional: o piloto de caças Hank Redmond e o cientista John Griffin; a especialista de missão Lydia Danes, nem sempre a mais agradável; a calorosa Donna Fitzgerald, que navega nos próprios segredos; e Vanessa Ford, a misteriosa e encantadora engenheira aeronáutica capaz de fazer qualquer nave voar.

E então, em dezembro de 1984, durante a missão STS-LR9, tudo muda num piscar de olhos. Enquanto os astronautas aprofundam os laços de amizade e se preparam para os primeiros voos, Joan descobre uma paixão e um amor que nunca imaginou viver. Com um novo mundo diante de si, ela passa a questionar tudo o que sabe sobre seu lugar no universo.

Frenético, apaixonante e inspirador, Atmosfera é Taylor Jenkins Reid em seu melhor: transportando leitores para tempos e lugares inimagináveis, apresentando personagens complexas e reais e contando histórias comoventes sobre o poder do amor ― dessa vez, entre as estrelas.

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