Resenha | Cinderela está morta – a nova versão para o clássico que promete mais do que entrega

Ficha Técnica
Livro: Cinderela está morta
Autora: Kalynn Bayron
Tradução: Karine Ribeiro e Érica Imenes

Editora: Galera Record
Número de Páginas: 294
Ano de Lançamento: 2021


E se a história de Cinderela tivesse de fato acontecido? Essa é a premissa de “Cinderela está morta”, o primeiro livro da escritora americana Kalynn Bayron. Duzentos anos se passaram desde o famoso baile em que Cinderela, com ajuda da Fada Madrinha, mudou sua história após conhecer o Príncipe Encantado. A história de Cinderela é usada como exemplo a ser seguido por todas as mulheres do reino de Mersailles, que devem se submeter a um baile anual promovido pelo Rei Manford. Nesse baile, garotas de 16, 17 e 18 anos são disponibilizadas para que os homens do reino escolham suas esposas. As garotas, além de obrigadas a participar do baile, também não podem recusar se casar caso sejam escolhidas por um pretendente. Após três bailes, as que não tiverem sido escolhidas são confiscadas pelo Rei. O destino delas é incerto, após serem presas, nunca mais são vistas.

Nesse contexto somos apresentadas à Sophia, uma jovem de 16 anos prestes a participar do seu primeiro baile. Embora seus pais tenham gastado muito dinheiro com vestidos e maquiagens para garantir que ela esteja pronta para o grande dia, tudo que Sophia quer é fugir com sua melhor amiga Erin, por quem é apaixonada. Após um incidente durante o baile, Sophia foge do castelo e acaba encontrando o mausoléu perdido de Cinderela, que a ajuda a desvendar a verdadeira história da princesa.

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A premissa de “Cinderela está morta” é ótima, uma história de fantasia com uma personagem negra e lésbica lutando contra um Rei machista, em uma sociedade patriarcal, pela liberdade das mulheres tem tudo para dar certo. Infelizmente não é o caso aqui. Kalynn Bayron nos entrega um reino mal desenvolvido, repleto de personagens mal elaborados, com um enredo que mais parece uma lista de tarefas.

Mersailles, o reino fictício onde a história se passa, é extremamente genérico e simplista. A única característica cultural do povo é ser machista. Aliás, o única traço dos personagens masculinos na história, com exceção de dois, é ser machista. O machismo é demonstrado através das falas dos homens de uma maneira tão escrachada que chega a ser quase cômico, como se estivéssemos lendo o discurso de um vilão de desenho animado.

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Sophia leva o estereótipo de adolescente irritante a outro patamar. Apesar de conhecer a história de séculos de opressão de seu reino, ela não pensa duas vezes ao comprar brigas e colocar sua própria vida, e de terceiros, em risco. Ela tenta convencer sua amiga a fugir do reino sem ter ao menos uma mínima ideia de como faria isso, e ainda fica ressentida quando ela (a amiga) escolhe não fazer parte dessa fuga arriscada. A personalidade da personagem muda drasticamente durante a narrativa, mas não porque houve um real desenvolvimento da mesma, e sim porque era conveniente para a trama que ela agisse de maneira diferente em determinados momentos. A personalidade de Sophia também é muito próxima do “não sou como outras garotas”. Em um reino tão opressor para mulheres, ela parece ser a única que vê o absurdo do machismo e da tradição do baile, e a única disposta a fazer algo a respeito.

O romance de “Cinderela está morta” também deixa muito a desejar. Sophia se diz apaixonada por Erin, mas a relação das duas nunca é bem definida. Após a fuga do castelo, ela se apaixona novamente por outra personagem de maneira tão instantânea que é difícil imaginar que ela estava apaixonada há anos por sua melhor amiga.

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Kalynn Bayron nos conta uma história sem nenhuma sutileza. Tudo que você precisa saber é dito, e não mostrado. Sabemos o que os personagens pensam e como se sentem não através das suas ações, mas porque a escritora nos diz. O desenvolvimento da narrativa não é natural, não existe uma progressão de ações que levam a outras ações. Algumas cenas não levam a lugar algum e muitas não tem conexão com o restante da história. A única qualidade é nos fazer refletir sobre a história original da Cinderela e sobre o absurdo que foi o baile do conto original.

Cinderela está morta” é uma obra única, mas desde seu lançamento a escritora já lançou “This poison heart”, primeiro volume de uma série de fantasia. A continuação, “This wicked fate” tem data prevista para 2022.


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Juliana Silva

Juliana, 28 anos, é formada em Publicidade e mora no interior de São Paulo. Seus passatempos favoritos são ler e maratonar desenhos animados pela promessa de um romance sáfico no último episódio.

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