LesB Indica | Rafiki – o filme que fez história em Cannes e foi banido no Quênia

Com mulheres em frente e por trás das câmeras, o drama queniano “Rafiki” fez história no principal festival de cinema do mundo, foi banido em seu país de origem e conquistou plateias por toda parte.

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A protagonista do longa-metragem é Kena, interpretada por Samantha Mugatsia, em seu primeiro papel. Kena é filha de um candidato a política na periferia de Nairobi, e, enquanto se divide entre cuidar da mãe e do mercadinho do pai, conhece Ziki (Sheila Munyiva), filha do candidato rival, o que vai dificultar a aproximação das duas. A primeira grande impressão em “Rafiki” é seu visual. A obra de Kahiu deseja a celebração do Quênia, e pinta cada quadro com uma explosão de cores. Com um design de produção que mistura Wes Anderson com Spike Lee, há tenro cuidado na composição das cenas, com sacadas verdadeiramente engenhosas: o filme é quase inteiramente cor de rosa, porém, em cenas centradas nos personagens masculinos, a cor sai da tela. Só há vivacidade quando as mulheres dominam o ecrã.

O primeiro choque social entre a relação das protagonistas vem do fato de que elas são filhas de políticos rivais. Nenhuma das famílias se mostra favorável à união, e isso era quando ali rolava apenas amizade aos olhos de todos, o que reflete o título da obra: rafiki é “amigo” em swahili, a língua local, e designação dada aos casais homossexuais para fugir da proibição de serem quem são – os parceiros são sempre chamados de “amigos”.

O ponto positivo na história de “Rafiki” fica por conta da abordagem nada fetichista da relação de Kena e Ziki. Há delicadeza nos planos e uma preocupação em mostrar mais a atmosfera de amor do que o sexo em si, resultando em cenas que poderiam servir de exemplo de abordagem de relacionamentos lésbicos para alguns diretores por aí. É justamente essa atmosfera envolvente que prende o espectador e faz com que ele simpatize com as duas garotas.

Curiosidades

Roteirista do longa, Wanuri Kahiu encontrou inspiração no conto “Jambula Tree”, escrito pela autora ugandense Monica Arac de Nyeko. Originalmente, a história se passava em Kampala, na Uganda, mas Kahiu adaptou a história para Nairóbi, no Quênia, onde a produção foi rodada.

O filme levou seis anos para ficar pronto

A história começou em 2012, quando Kahiu participou de um workshop para desenvolver o roteiro. A partir daí, ela apresentou o projeto a centenas de pessoas até conseguir trinta financiadores internacionais e seis empresas coprodutoras (a principal é a sul-africana Big World Cinema). A pré-produção começou em dezembro de 2016 e as gravações foram feitas no ano seguinte, durante um mês. Com exceção de quatro pessoas, toda a equipe foi formada por profissionais quenianos.

A produção fez sua estreia mundial em Cannes

A seleção de “Rafiki” para a edição de 2018 do Festival de Cannes representou a primeira vez que um filme queniano fez parte da programação oficial em todos os 71 anos do evento.

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As protagonistas não tinham experiência no cinema

Tanto Samantha Mugatsia, que interpreta Kena, quanto Sheila Munyiva, que vive Ziki, são quenianas e tinham pouca ou nenhuma experiência como atrizes. A primeira trabalhava como artista visual, DJ e baterista em vários grupos musicais, incluindo o “Yellow Light Machine”. A segunda estudou cinema na faculdade, mas tinha feito poucos trabalhos como atriz e nenhum deles no cinema. Ela também está traçando uma carreira por trás das câmeras: dirigiu comerciais e trabalha em seu primeiro curta-metragem.

Maria Izabelly Lopes

Maria Izabelly Lopes

Maria Izabelly Lopes, é ex estudante de jornalismo (grande coisa) e atualmente é quase psicóloga. Viciada em Grey’s Anatomy, sabe bem o que é ser trouxa por séries. Feminista, esquerdista e sem terra de carteirinha. Recifense com muito orgulho e fã de muita coisa.

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