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10 anos de SEPTO: a websérie lésbica, potiguar e brasileira que continua relevante

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Em 2016, uma produção independente feita em Natal, no Rio Grande do Norte, colocou uma história de amor entre duas mulheres no centro da narrativa. Assim nasceu SEPTO, websérie criada por Alice Carvalho que, dez anos depois, segue merecendo espaço nas conversas sobre audiovisual brasileiro e representação sáfica.

Com três temporadas lançadas entre 2016 e 2020, a produção construiu uma trajetória que ultrapassou os limites de sua origem independente. Para além da história de Jéssica e Lua, SEPTO representa a possibilidade de contar histórias lésbicas a partir de um lugar específico: o Nordeste brasileiro, com seus sotaques, suas expressões e suas próprias referências culturais.

Uma história de amor nascida em Natal

A primeira temporada apresenta Jéssica Borges, uma triatleta potiguar interpretada por Alice Carvalho, que conhece Lua, vivida por Priscilla Vilela, depois de passar mal durante um treino no mar. A partir desse encontro, a relação entre as duas mulheres se torna o eixo romântico da narrativa.

A proposta começou a tomar forma como um curta-metragem, mas ganhou outro caminho depois de uma sugestão de Pipa Dantas: transformar o projeto em uma websérie. Em entrevista ao LesB Out!, Alice Carvalho também destacou o caráter coletivo da criação, desenvolvida com a participação de Aureliano Medeiros e Frank Aleixo.

A produção da primeira temporada foi viabilizada por uma campanha de financiamento coletivo no Catarse, realizada entre janeiro e março de 2016. A meta era arrecadar R$ 15 mil, mas o projeto conseguiu R$ 16.282,00, com o apoio de 189 pessoas. A campanha previa cinco episódios, com duração média de oito minutos, e reunia uma equipe de 25 profissionais potiguares.

Esses detalhes ajudam a dimensionar o que SEPTO representou desde o início: uma produção independente que mobilizou sua própria comunidade para colocar uma história sáfica na tela.

Representar o Nordeste também importa

A importância de SEPTO não está apenas no romance entre Jéssica e Lua. A série também abre espaço para uma representação que parte da experiência nordestina, sem tratar a região como cenário genérico ou limitar suas personagens a referências distantes de sua realidade.

Em entrevista ao Itaú Cultural, Alice Carvalho explicou que a vontade de representar sua experiência como mulher nordestina e LGBTQIA+ esteve entre as motivações para criar a obra. A atriz também mencionou a falta de produções que contemplassem a cultura potiguar e as vivências de pessoas LGBTQIA+ do Nordeste.

Essa escolha aparece na própria construção da série, inclusive no uso de expressões locais e do sotaque nordestino. Em um audiovisual no qual as histórias de mulheres que amam mulheres nem sempre encontram espaço, contar essa relação a partir de Natal amplia as possibilidades de identificação e de representação.

Não se trata de atribuir a SEPTO um pioneirismo que não pode ser estabelecido sem uma pesquisa histórica mais ampla. Trata-se de reconhecer o lugar que a produção ocupa na história das webséries lésbicas brasileiras e a importância de uma obra que escolheu contar essa história a partir de uma perspectiva potiguar.

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Três temporadas e uma trajetória que ultrapassou a internet

SEPTO teve sua primeira temporada em 2016, a segunda em 2019 e a terceira em 2020. A continuidade do projeto contou com o apoio do programa Rumos Itaú Cultural nas duas últimas temporadas, permitindo que a história seguisse depois de sua estreia.

A segunda temporada chegou ao canal Brasileiríssimos, no YouTube, em maio de 2019. Já o episódio final da terceira temporada, intitulado “Até Logo”, foi publicado em abril de 2020. A realização é do Caboré Audiovisual, responsável pela produção, enquanto o Brasileiríssimos participou da distribuição da websérie na internet.

A trajetória da produção também passou por festivais nacionais e internacionais, incluindo o Buenos Aires Webfest, o Seoul Webfest e o Rio WebFest. Entre os reconhecimentos registrados pela Caboré Audiovisual estão os prêmios de Melhor Websérie pelo Júri Popular no Buenos Aires Webfest, Melhor Elenco de Drama no Rio WebFest e Melhor Direção no SP WebFest.

A circulação de SEPTO também chegou ao campo acadêmico. Pesquisas sobre a produção e o consumo de webséries analisaram sua trajetória na internet, enquanto estudos sobre webséries lésbicas brasileiras passaram a discutir a obra em relação à representação de mulheres e à presença de elementos culturais nordestinos.

Esse percurso mostra que a série não ficou restrita ao lançamento de seus episódios. Ela também passou a integrar discussões sobre produção independente, circulação audiovisual e representação LGBTQIA+ no Brasil.

Alice Carvalho antes de Cangaço Novo e Renascer

SEPTO tem ainda um significado muito particular: foi por meio da websérie que conheci Alice Carvalho e foi a primeira produção independente que assisti. Na época, eu não imaginava que acompanharia, anos depois, sua trajetória em produções de grande alcance nacional. A websérie faz parte do início de sua trajetória audiovisual, antes de trabalhos como Cangaço Novo, série em que interpretou Dinorah, e Renascer, novela na qual viveu Joana.

Relembrar esse começo também é olhar para o caminho percorrido por uma artista que participou da construção de uma produção independente potiguar e, posteriormente, chegou a projetos de maior visibilidade. SEPTO continua sendo uma parte importante dessa trajetória, não apenas por apresentar Alice Carvalho ao público, mas também por mostrar sua atuação na criação de histórias brasileiras.

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Dez anos depois, SEPTO continua relevante

Em 2026, SEPTO completa dez anos desde o início de sua trajetória em 2016, este ano comemorativo oferece uma oportunidade para revisitar uma produção que marcou a história de quem encontrou nela uma representação diferente daquela que costumava ocupar as telas. Por isso, revisitar sua história também é lembrar de uma obra que tem um lugar especial na minha relação com as narrativas sáficas. Mas a importância da produção não se limita à memória de quem a acompanhou em seu lançamento.

A permanência de episódios no YouTube, sua circulação em festivais e sua presença em pesquisas acadêmicas são caminhos concretos para compreender por que vale a pena continuar falando sobre a série. A representação de uma relação entre mulheres, construída a partir da cultura potiguar e da experiência nordestina, também permanece como parte importante dessa conversa.

A relevância de uma obra não precisa depender apenas de sua novidade. Algumas produções merecem ser revisitadas porque ajudam a entender os caminhos que o audiovisual brasileiro percorreu e as histórias que puderam encontrar espaço graças ao trabalho de artistas e equipes independentes.

Dez anos depois, SEPTO continua merecendo ser assistida, lembrada e discutida. É uma websérie lésbica, potiguar e brasileira que colocou Jéssica e Lua no centro da tela e que permanece disponível para novas descobertas e reencontros. Se você ainda não conhece a história, vale procurar os episódios disponíveis no YouTube, no canal Brasileiríssimos. E, se já assistiu, este pode ser o momento de revisitar SEPTO e lembrar por que histórias como essa merecem continuar circulando.

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