Ficha Técnica
Livro: Foi Mal, Cara
Autora: Taleen Voskuni
Editora: Astral Cultural
Número de Páginas: 388
Ano de Lançamento: 2024
Existe um momento na vida em que tudo parece estar exatamente onde deveria. Você tem um relacionamento estável, uma carreira consolidada e um futuro praticamente desenhado. Mas e quando, em vez de conforto, esse roteiro começa a provocar dúvidas? É justamente desse sentimento que nasce “Foi Mal, Cara”, de Taleen Voskuni, um romance sáfico que vai muito além da história de amor e entrega uma narrativa sobre identidade, pertencimento e a coragem de recomeçar.
Nareh tem 27 anos e acredita que o próximo passo lógico de um relacionamento de cinco anos seria o casamento. Só que, quando o tão esperado pedido finalmente acontece, a reação dela não é felicidade: é um enorme vazio. Enquanto o namorado viaja a trabalho, os dois decidem dar um tempo, e Nareh aceita o convite da mãe para participar de eventos voltados à comunidade armênia, na esperança de conhecer um “bom rapaz armênio”. O problema, ou talvez a solução, é que quem realmente chama sua atenção é Erebuni, uma ativista apaixonada pela preservação da cultura armênia.
Resenha | Cupidos não se apaixonam – o melhor livro da Clara Alves (até agora)
O romance entre as duas acontece de forma rápida, quase impulsiva, e talvez esse seja um dos poucos pontos que podem incomodar alguns leitores. A conexão entre Nareh e Erebuni se desenvolve em poucas semanas, deixando pouco espaço para um aprofundamento mais gradual da relação. Ainda assim, o foco do livro nunca parece ser apenas o romance.
Na verdade, “Foi Mal, Cara” usa essa paixão como ponto de partida para contar uma história muito maior. Ao longo da narrativa, Nareh não descobre apenas uma nova possibilidade de amar, mas também uma parte de si mesma que passou anos ignorando. Filha de um pai que fazia questão de se afastar das próprias origens armênias e evitava qualquer conversa sobre o genocídio e a história de seu povo, ela cresceu acreditando que manter distância dessa cultura era algo positivo. Depois da morte do pai, esse afastamento ganha um peso ainda maior: aproximar-se das próprias raízes parece, de certa forma, uma traição à memória dele.
É bonito acompanhar esse processo porque ele não acontece de uma hora para outra. Nareh é completamente leiga sobre a própria história, faz perguntas que muitos leitores talvez também fariam e, aos poucos, entende que existir enquanto armênia também é um ato de resistência. A autora transforma esse aprendizado em uma jornada extremamente humana, mostrando que identidade também é algo que se constrói.
Nesse sentido, o livro funciona muito mais como uma história sobre pertencimento do que como uma história romântica. Há muitas conversas sobre memória, preservação cultural, xenofobia e ativismo. Inclusive, conforme Nareh passa a enxergar sua própria cultura com outros olhos, ela também começa a perceber situações de preconceito que antes naturalizava em seu trabalho como repórter de televisão.
Francesca Bridgerton e o desconforto de romper estereótipos
Esse talvez seja o maior mérito da obra: mostrar que descobrir quem você é não acontece isoladamente. A sexualidade de Nareh caminha lado a lado com sua reconexão cultural. Ela nunca havia sentido necessidade de se assumir bissexual porque estava em um relacionamento com um homem, e é somente ao conhecer Erebuni que percebe quantas partes de si mesma permaneceram adormecidas por conveniência, medo ou simples falta de oportunidade.
É fácil olhar para Nareh e enxergá-la como uma protagonista indecisa. Em muitos momentos, ela realmente parece não saber qual caminho seguir. Mas a história deixa claro que essa indecisão nasce de um processo profundamente humano: ela está desmontando uma vida inteira que acreditava ser a certa. Questionar um relacionamento de cinco anos, enfrentar expectativas familiares, revisitar o luto pelo pai e descobrir uma nova identidade aos 27 anos não são mudanças pequenas e o livro trata tudo isso com bastante empatia.
Erebuni, por sua vez, representa justamente esse convite para enxergar outras possibilidades de vida. Ela desafia Nareh, a confronta e amplia sua visão de mundo sem nunca roubar o protagonismo da narrativa. É impossível separar a influência dela da transformação vivida pela protagonista.
Se existe um aviso importante sobre “Foi Mal, Cara”, é que ele talvez não agrade quem procura um romance leve e despretensioso. A história dedica muitas páginas à cultura armênia, ao contexto histórico do povo armênio e às discussões sobre preservação da memória. Para alguns leitores, isso pode tornar a leitura mais lenta. Para outros, é justamente o que faz o livro se destacar entre tantos romances contemporâneos.
No fim das contas, “Foi Mal, Cara” é uma história sobre entender que nunca é tarde para descobrir quem você realmente é. Nunca é tarde para questionar escolhas antigas, revisitar suas origens ou admitir que o caminho que parecia perfeito talvez nunca tenha sido o seu.