Uma adolescente bissexual, um acampamento religioso, sete pecados capitais e a filha do pastor. A premissa de Oremos, de Jenna Voris, mistura elementos que dificilmente passariam despercebidos por quem gosta de histórias LGBTQIA+ que também questionam estruturas sociais. E foi justamente essa combinação que me chamou a atenção para o livro.
Publicado no Brasil pela Plataforma 21, Oremos acompanha Riley Ackerman, uma adolescente bissexual que se afastou da igreja depois de perceber que não havia espaço para ela naquela comunidade. Um ano depois, após agredir uma garota que falou mal de sua irmã, Hannah, Riley recebe uma alternativa à suspensão escolar: passar as férias de primavera em um acampamento religioso e escrever uma redação sobre o que aprendeu por lá.
Só que Riley não está nem um pouco interessada em seguir as regras da igreja. Em vez de praticar as sete virtudes defendidas pela comunidade, ela decide cometer os sete pecados capitais. A ideia é questionar os valores que lhe foram ensinados e mostrar que aquilo que uma instituição considera pecado nem sempre corresponde ao que é certo ou errado na prática.
E é aqui que Oremos começa a ficar interessante.
A proposta da autora é muito boa, principalmente porque não se limita à discussão sobre sexualidade. O livro também aborda trauma religioso, cultura de pureza e os efeitos de uma educação baseada na culpa e no medo. Afinal, o que acontece quando uma comunidade ensina que determinadas partes de quem você é são incompatíveis com a fé? E o que acontece quando as pessoas que deveriam oferecer acolhimento são justamente aquelas que fazem você se sentir inadequada?
A história de Hannah amplia ainda mais essa discussão. Depois de fazer um aborto, ela é afastada da igreja e passa a ser tratada como um exemplo do que os outros não deveriam fazer. Sua experiência evidencia uma contradição importante: uma comunidade que prega determinados valores também pode usar esses mesmos valores para justificar a exclusão, a humilhação e o julgamento de quem não se encaixa em suas expectativas.
É uma das questões que mais gostei de ver exploradas na narrativa. Existe uma diferença enorme entre defender princípios e utilizá-los como justificativa para controlar a vida alheia. E Oremos encontra uma maneira interessante de colocar essa contradição em evidência, especialmente quando acompanhamos adolescentes tentando descobrir quem são enquanto lidam com as expectativas de suas famílias e da comunidade religiosa.
Resenha | O Diabo Veste Cor-de-Rosa: uma fantasia sáfica que poderia ser muito mais cativante
E o romance sáfico?
No meio de toda essa discussão, temos Riley e Julia, filha do pastor responsável pelo acampamento e melhor amiga de Riley. Julia é lésbica, e a relação entre as duas se desenvolve ao longo da história.
Confesso que esperava um pouco mais desse aspecto. Embora o romance tenha seu espaço, ele não é o foco principal da narrativa. Para mim, funciona muito mais como uma parte da jornada das personagens do que como o centro da trama.
Isso não significa que o relacionamento seja ruim, mas vale alinhar as expectativas: se você procura um romance sáfico com bastante desenvolvimento romântico, momentos de aproximação e a relação ocupando boa parte da história, talvez sinta falta de algo. Eu gostaria que Riley e Julia tivessem recebido um pouco mais de atenção nesse sentido.
Por outro lado, entendo como o romance se encaixa na proposta do livro. A história está muito mais interessada em discutir religião, identidade e as consequências de crescer em um ambiente que tenta determinar quem você pode ser. O relacionamento entre as duas faz parte desse contexto, mas não é a única coisa que movimenta a narrativa.
O pastor Young me irritou muito!
Se tem um personagem que conseguiu despertar sentimentos fortes durante a leitura, foi o pastor Young. A maldade do personagem e, principalmente, algumas de suas falas ameaçadoras me causaram repulsa.
E não é difícil entender o motivo. O pastor representa uma forma de exercer autoridade que utiliza a culpa, o medo e a ameaça de punição para manter as pessoas sob controle. A ideia de que os fiéis precisam obedecer para não serem condenados acaba criando um ambiente em que questionar as regras se torna assustador, especialmente para quem ainda está construindo a própria identidade.
Para as personagens adolescentes, isso ganha um peso ainda maior. Como descobrir quem você é quando as pessoas ao seu redor fazem você acreditar que existe algo de errado em seus sentimentos, desejos ou escolhas? Como construir uma relação saudável com a própria identidade quando a possibilidade de rejeição está sempre presente?
É justamente por isso que as discussões levantadas por Oremos são tão relevantes. O livro mostra como determinadas interpretações religiosas podem afetar a autoestima, os relacionamentos e a maneira como as pessoas enxergam a si mesmas. E faz isso a partir de uma premissa que mistura rebeldia adolescente, conflitos familiares e questionamentos sobre aquilo que uma comunidade considera moralmente aceitável.
Resenha | Foi Mal, Cara – um romance sobre descobrir que nunca é tarde para mudar a própria história
Afinal, vale a pena ler Oremos?
Oremos foi uma leitura de três estrelas para mim. Gostei bastante da premissa, achei interessante a maneira como o livro aborda a hipocrisia religiosa e reconheço o potencial das discussões que Jenna Voris propõe. Ao mesmo tempo, algumas escolhas da narrativa não funcionaram tão bem para mim, principalmente o espaço dedicado ao romance, que poderia ter sido mais desenvolvido.
Acho importante destacar que este não é exatamente um livro para quem procura apenas uma história de amor entre duas garotas. O romance sáfico está presente, mas divide espaço com questões muito maiores, como o preconceito, a exclusão, o trauma religioso e a liberdade de construir a própria identidade.
No fim, Oremos me conquistou mais pela ideia do que pela execução de todos os seus elementos. É uma história que provoca reflexões interessantes, desperta indignação em determinados momentos e abre espaço para discussões importantes sobre fé, acolhimento e respeito.
Se você gosta de livros LGBTQIA+ que vão além do romance e não tem medo de histórias que questionam instituições e comportamentos, pode valer a pena dar uma chance a Oremos. Só não espere encontrar uma trama predominantemente romântica: o coração desta história está no confronto entre aquilo que nos ensinaram a acreditar e aquilo que começamos a descobrir por conta própria.