Estamos acostumadas a imaginar o apocalipse como um cenário de destruição, violência e sobrevivência. Em Pluribus, série original da Apple TV criada por Vince Gilligan, conhecido por Breaking Bad e Better Call Saul, a proposta é um pouco diferente: e se o fim do mundo acontecesse quando todo mundo estivesse feliz demais?
Lançada em novembro de 2025, a série de ficção científica acompanha Carol Sturka (Rhea Seehorn), uma escritora de romances que se vê diante de uma realidade em que a humanidade foi transformada em uma consciência coletiva. Enquanto o restante do mundo parece viver em perfeita harmonia, Carol permanece imune à transformação e se recusa a aceitar essa nova ordem.
A ideia pode parecer simples à primeira vista, mas é justamente a maneira como Pluribus desenvolve essa premissa que torna a série tão interessante. Em vez de apostar em um apocalipse convencional, a produção constrói uma distopia em que a paz e a felicidade deixam de ser garantias de uma vida melhor e passam a levantar dúvidas sobre liberdade, autonomia e individualidade.
Uma protagonista que não precisa ser fácil de gostar
Carol está longe de ser aquela protagonista que conquista o público logo nos primeiros minutos. Cínica, ressentida e egoísta em diversos momentos, ela reage à nova realidade com desconfiança e resistência. Mesmo quando as pessoas ao seu redor parecem dispostas a ajudá-la, Carol não consegue simplesmente aceitar o conforto que lhe oferecem.
Carol também é uma mulher lésbica e uma escritora de romances populares. Sua vida profissional, seus vínculos afetivos e suas contradições fazem parte da construção da personagem, sem que sua sexualidade seja tratada como sua única característica. Ela tem desejos, frustrações e defeitos, e não precisa ser transformada em uma heroína exemplar para sustentar a narrativa.
É justamente isso que torna a atuação de Rhea Seehorn tão importante. A atriz dá vida a uma mulher que precisa lidar com o isolamento, a raiva e a dificuldade de compreender uma realidade que parece não fazer sentido para ela. Carol não é necessariamente alguém que queremos admirar o tempo inteiro, mas é uma personagem que desperta curiosidade e faz a gente querer entender suas escolhas.
Quando todo mundo é feliz, o que ainda dá sentido à vida?
O conflito de Pluribus vai além da tentativa de Carol de encontrar uma maneira de reverter o que aconteceu com a humanidade. A série também coloca em discussão o que perdemos quando deixamos de experimentar o mundo individualmente.
Na nova realidade, as pessoas parecem satisfeitas, pacíficas e dispostas a atender aos desejos de Carol. Só que existe algo inquietante nessa harmonia. Se todo mundo está feliz o tempo inteiro, onde ficam as diferenças? O que acontece com os objetivos pessoais, as frustrações e os conflitos que também fazem parte da experiência humana?
Afinal, até que ponto uma felicidade permanente pode ser considerada uma conquista quando não existe espaço para escolher como viver, sentir e reagir? A série trabalha essas contradições sem transformar sua premissa em uma discussão simples sobre certo e errado. O que parece uma utopia para alguns pode representar uma ameaça para quem ainda deseja preservar a própria individualidade.
É uma abordagem que torna Pluribus uma distopia diferente de tantas outras. O desconforto não vem apenas do que pode dar errado, mas também da possibilidade de que algo aparentemente perfeito esconda um custo alto demais.
Uma série que vale a paciência
É importante dizer que Pluribus começa em um ritmo mais lento. Diferentemente de produções que apresentam respostas e grandes acontecimentos rapidamente, a série demora a avançar e deixa várias questões em aberto. Para quem prefere histórias que entregam explicações a todo momento, esse início pode exigir um pouco mais de paciência.
Mas vale insistir. A narrativa é bem construída, desenvolve suas ideias com cuidado e encontra força justamente nas perguntas que deixa pelo caminho. Em vez de depender apenas de reviravoltas, a série dá espaço para que a gente acompanhe a protagonista, compreenda suas reações e observe as contradições desse mundo aparentemente perfeito.
Para quem gosta de ficção científica e distopias, Pluribus pode ser uma ótima escolha, especialmente se você se interessa por produções como The Last of Us, Black Mirror e Ruptura. As histórias são diferentes, mas compartilham o potencial de provocar reflexões sobre a humanidade e as estruturas que organizam nossas vidas.
E, para quem procura histórias com personagens LGBTQIA+, acompanhar Carol também é uma oportunidade de encontrar uma protagonista lésbica cuja trajetória não se resume à sua orientação sexual. Ela ocupa o centro de uma história ambiciosa, cheia de contradições e interessada em explorar os limites das emoções humanas.
Pluribus não oferece uma protagonista perfeita nem um mundo fácil de decifrar. Em vez disso, apresenta uma mulher tentando encontrar seu lugar em uma realidade que parece ter eliminado tudo aquilo que nos torna diferentes. É uma série provocadora, sustentada por uma personagem extraordinária e por uma pergunta que continua ecoando mesmo depois que o episódio termina: será que uma vida sem tristeza, conflitos ou frustrações seria realmente uma vida melhor?